Rádio Cenecista de Picuí

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Aos 79 anos, nova-palmeirense participa de rodas de choro e encanta moradores do RJ

Nova-palmeirense José Medeiros e amigos resgatam gênero musical onde viveu Jacob do Bandolim

Quando Marlindo Augusto Barbosa, de 74 anos, entrou em um aviário na Praça Seca, há mais ou menos 25 anos, seus ouvidos atentaram, pela primeira vez, para uma música instrumental complexa e tipicamente carioca: o choro. Naquele momento, nasciam seu interesse e sua paixão pelo gênero. Músicos se reuniam no aviário, que dividia espaço com um ferro-velho, para fazer uma roda, e, como Barbosa não tocava nenhum instrumento, resolveu servir cafezinho para os chorões. Do café, passou a levar lanche, tornou-se assistente dos músicos e, depois, propôs que o choro passasse a ser na sua própria casa, na Rua Mamoré, no Largo da Freguesia. Aprendeu a tocar violão de seis cordas e, claro, conseguiu um lugar cativo na roda, que há 23 anos é realizada todo domingo no seu quintal.


A história de Barbosa só comprova que um dos maiores músicos, compositores e bandolinistas do mundo felizmente estava errado. Jacob do Bandolim disse, uma vez, que o choro morreria com ele. Ledo engano. Em Jacarepaguá, onde morou Déo Rian e o mestre Jacob, que promoveu inúmeros saraus em sua casa, e também no Recreio, músicos resgatam o gênero, sejam em rodas antigas, símbolos da resistência, sejam nas recém-formadas, que surgem para renovar o gênero. É assim há três meses no Bosque de Jacarepaguá. Sempre no quarto domingo do mês, das 10h ao meio-dia, o grupo Chorando em JPA se reúne para levar ao bairro os arranjos melódicos do choro. Sem número fixo de componentes, a roda está aberta a quem quiser participar. É música livre, improvisada e de qualidade.— Queremos reunir músicos para resgatar o choro em Jacarepaguá, por isso não temos um grupo fixo. Todo mundo pode chegar e tocar. O que acontece aqui é muito espontâneo, não ensaiamos. O choro é um aprendizado — conta Nelson Christo, que toca violão.
Constantino Almeida, outro violonista, complementa:

— O que faz uma pessoa querer tocar e melhorar é entrar na roda. Um ajuda o outro, nosso espírito é de colaboração.

Os músicos começaram a tocar juntos há um ano e meio, na Praça Orleans, na Taquara, mas sem periodicidade fixa. Decidiram, então, que criariam um evento mensal e escolheram o bosque como sede. A divulgação é no boca a boca, e os encontros estão cada vez mais cheios. Na visão deles, o lugar é propício para criar e fazer ressurgir o interesse pelo gênero musical, uma vez que, sendo um espaço público, permite que qualquer um pare e aprecie a música — tradicionalmente, as rodas eram realizadas nas casas dos próprios músicos. No Bosque da Freguesia, não é incomum o Chorando em JPA arrancar comentários como “há muito tempo não escuto um bom choro” ou “vocês têm que tocar mais vezes”.

O crescente interesse dos frequentadores chama a atenção dos músicos, que, entre eles, consideram o estilo difícil tanto para que toca quanto para quem escuta. Para o cavaquinista Pedro Cantalice, a complexidade das notas musicais e da melodia e o fato de não haver canto são alguns dos motivos pelos quais o choro foi perdendo popularidade ao longo dos anos. Ele acredita, no entanto, que o estilo sempre foi forte elemento da cultura carioca, embora não estivesse presente nas rádios.

Roda Choro no Recreio toca uma vez por mês na praça do bairro e atra cerca de 40 pessoas (Foto: Rodrigo Berthone)

— O interesse popular pelo choro existe desde a década de 1970, mas ele sempre foi muito marginalizado, porque não é uma música comercial. Por outro lado, tem um enorme valor. Tecnicamente falando, um cara que quer tocar bem um instrumento tem no choro a sua escola, porque ela exige muito do intérprete. E o choro, que nasceu no Rio, tem características cariocas muito fortes, como o improviso, a descontração, a roda... É uma música muito alegre. Por isso, na minha opinião, vai ter sempre gente tocando e ouvindo choro — prevê.

Na Praça Augusto Ruschi, no Recreio, o choro também ecoa. Num certo dia, o som de uma flauta ecoando uma música de Pixinguinha, que parecia vir de uma árvore, chamou a atenção do engenheiro elétrico Márcio Rondon, que havia tirado aquela noite para passear com seu cachorro. Embaixo da árvore, sozinho, no escuro da noite, estava o professor Pedro Fontes. Papo vai, papo vem, ambos descobriram algo em comum: além de apreciadores de choro e samba, os dois estudavam na Escola Portátil de Música (EPM), na Urca, criada por músicos de choro no ano 2000, com a finalidade de passar adiante seus conhecimentos sobre o gênero. Não tardou para surgir a ideia de uma roda de choro.

— Comecei a perguntar para a galera da EPM, pelo WhatsApp, quem morava na região do Recreio. Aos poucos foi aparecendo gente interessada em se reunir, porque a maioria das rodas de choro sempre eram realizadas no Centro ou na Zona Sul. Eram! — frisa Egídio.

O primeiro encontro da turma, no ano passado, foi na casa do próprio engenheiro. Atualmente, a roda Choro no Recreio, comandada por seis músicos, se apresenta sempre no segundo domingo do mês, no Praça Augusto Ruschi (este mês, por causa do Dia dos Pais, a roda será no dia 20). Para saber as datas dos encontros na praça, basta acessar a página Choro no Recreio no Facebook.

NOVIDADE E TRADIÇÃO
A turma do Choro no Recreio é organizada. Com integrantes cujas idades variam entre 53 e 73 anos, a roda é composta por Márcio Rondon, no cavaco; Paulo Fontes, no violão 7 cordas; Constantino Almeida, no violão de seis cordas; Joaquim Neto, no violão tenor; Wanderley Barroso, no sax; e Pedro Fontes, na flauta. Eles mantêm páginas nas redes sociais e sempre se apresentam com uma camiseta personalizada, com direito a logomarca criada especialmente para a roda. Em paralelo aos encontros mensais a céu aberto na praça — que vão das 10h às 13h e costumam atrair cerca de 40 pessoas —, os integrantes da roda se apresentam toda quinta-feira no bar Riviera do Recreio, por volta das 19h, numa espécie de happy hour do choro.

Para Rondon, que articulou a formação da roda, tocar músicas baseadas nesse ritmo genuinamente carioca é uma forma de levar cultura aos moradores do bairro.

— O Recreio é um bairro muito novo e ainda não tem uma identidade própria, quando comparado a outras regiões da cidade. É uma maneira de a gente trazer a identidade do Rio para cá também.

Na Freguesia, mesmo a roda não tendo o intuito de atrair o público em geral, acaba chamando a atenção de quem passa — e os atraídos pela música são bem recebidos. Na casa de Marlindo, diz ele, os chorões são como uma grande família, e o evento, realizado aos domingos, das 9h ao meio-dia, já virou tradição. A velha guarda local do choro tem entre os seus componentes, além de Marlindo, mestre Siqueira, da Mangueira, e João Cunha, no cavaquinho; Severino Ramos, no pandeiro; Newton Nazareh, no bandolim; Edgard Gordilho, na flauta; e José Xavier de Medeiros, no violão de 7 cordas; — formação clássica de uma legítima roda de choro.

José Medeiros, conhecido carinhosamente por Dedé, é natural de Nova Palmeira, na Paraíba. Ele saiu aos 18 anos para ganhar a vida no Rio de Janeiro e, aos 79 anos, ainda participa das rodas com entusiasmo igual ao da sua primeira participação.
 
Em destaque na imagem, José Xavier Medeiros tocando seu violão (Foto: Hermes de Paula/Agência O Globo) 
Os últimos a integrar o grupo foram Pedro Cantalice, que também toca no Bosque da Freguesia, e a jovem flautista Marina Bonfim, considerada a neta emprestada de todos eles.

— Quando eu tinha 12 anos, toquei pela primeira vez, a convite de uma amiga da minha mãe, também musicista. Voltei a reencontrá-los em 2010, na Escola Portátil, e desde então passei a frequentar a roda. Para mim, é um privilégio tocar e ter contato com a velha guarda do choro. É muito gostoso participar — resume Marina.

Embora estejam juntos há décadas, os chorões garantem que nunca brigam. Não há tempo para isso; estão sempre ocupados em tocar. Juntos, eles gravaram o disco “Chorando sempre” e fizeram um show em homenagem a Jacob do Bandolim, com a presença da família do músico. Na roda, já receberam apaixonados pelo gênero da Alemanha, dos Estados Unidos e até do Japão.

O mesmo grupo se apresenta também no primeiro domingo do mês na Lona Cultural Jacob do Bandolim, em Jacarepaguá, das 9h30m ao meio-dia. Lá, eles seguem um repertório predeterminado e costumam contar histórias do choro e das músicas tocadas. Este é o único domingo em que não há encontro na casa de Marlindo.

— Contamos as histórias dos choros, dos compositores e das músicas. Muitas delas têm nomes engraçados, palavrões. Por exemplo, a expressão “virou padre” da música “Joaquim virou padre”, de Pixinguinha, significa que o cara parou de beber — revela João Cunha.

Newton Nazareth, que também é poeta e cronista, completa:

— O choro é uma música muito bonita, e essa é uma forma de divulgá-la.

Reportagem de Júlia Amim e Rodrigo Berthone - Agência O Globo / Informações de José Xavier de Medeiros - Blog NP

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